Das diversidades…

– Tenho dificuldade… Assumiu diante dele.

_ Tenho dificuldade. Não consigo assumir compromissos. Não percebo, é inconsciente, mas associo a uma experiência ruim.

O silêncio encheu o ambiente. Daquele conhecido intervalo dos amantes, em que a palavra cala para ouvir o olhar.

– Você aceita ser meu “ficante”?

– Se é melhor para você assim, por mim tudo bem.

Ela agradeceu, aliviada, certa de que está fora de perigo. Falam-se todos os dias, vem-se com regularidade. Não há outros ou outras. Apenas ele e ela.

– Somos apenas ficantes, justificou-se à amiga.

“É minha namorada.” – Sussurou ele consigo, sem notar o desenhar de um sorrizinho maroto nos lábios…

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O ficar e o Amar…

FICAR: Verbo de LIGAÇÃO e INTRANSITIVO. Soa como algo que liga, mas que não depende de nenhum outro termo para ligar-se ao outro (termo). Diferente dos verbos transitivos que necessitam de seus COMPLEMENTOS. Os INTRANSITIVOS são verbos que possuem sentido pleno, completo, que não precisam de um COMPLEMENTO podendo construir, SOZINHOS, o predicado.

É minha gente, a língua representa mesmo o mundo da gente. Não sei bem se representa ou se explica, mas acredito nessa “denúncia” que a língua nos dá. É por isso que insisto em que precisamos ser bons leitores, para ouvirmos as dicas que ecoam por trás das singelas palavras. E aqui detém-se minha reflexão.

Recentemente, eu conversava banalidades e casualidades quando uma amiga, de idade próxima a minha e que costumeiramente se queixa de estar solteira mostrou-se (confesso que para minha surpresa) favorável ao FICAR. Até ai tudo bem (se é que eu consigo mesmo ficar – olha o sentido, hein – indiferente ao que vivencio), mas o tema voltou a me incomodar quando conversando com outra pessoa, em situação distinta (ambos aqui citados sequer se conhecem ou convivem), em idade próxima a minha – vale ressaltar – também mostrou-se favorável ao tal do relacionamento “ficar”.

Ai, senhores, confesso que eu comecei a me preocupar. Sim! Por que pensei: “Xi, tô tão moralista assim? Envelheci mesmo, hein? Tô “fora da casinha?” E toda aquele conflito que surge quando você não é idêntico ao meio. Sim! Fui repensar os meus VALORES!

Como vocês sabem, dentre cozinhar, dirigir, brincar com a minha sobrinha de 02 anos e tantas infinidades de coisas que gosto de fazer, inclui-se o pensar. Só que pensar é mais que gosto, é reflexo. Tão automático quanto respirar ou deixar o coração bater. E assim fiquei, pensando isso nos intervalos entre um e outro pensamento qualquer… (rs)

E ai brotou uma conclusão, a qual relato aos senhores na forma desse humilde texto. Por favor, vocês sabem que estou totalmente aberta a DIALOGAR sobre o assunto (amo isso! acredito no diálogo como forma de convívio entre pessoas e instituições). E ai vai minha idéia básica sobre o ditinho FICAR.

Como cidadãos de um Estado Democrático de Direito (achei tão chique esse termo, deve ser porque eu nasci na Ditadura!), nosso maior direito é o da LIBERDADE, certo?

Pois bem. TOOOODOS sabemos que a liberdade é LIMITADA e TEM PREÇO. Calma. Explico-lhes: como uma mocinha na faixa dos 30, conquistei a LIBERDADEde não precisar dar muitas satisfações aos meus pais. O PREÇO disso: pago todas as minhas contas e meu pai não me sustenta mais.

Ok. Isso é só um exemplinho pequenininho. Porque tem mais um detalhe: a LIBERDADE pressupões IGUALDADE, ou seja, tenho tanto direito de exercer minha liberdade quanto o outro, assim a minha termina onde a dele começa e ai vai. Resumindo: a dignidade é o limite. Tudo aquilo que fere a dignidade ou o respeito ao outro é o limite do que eu posso ou não fazer no convívio social. Quer dizer, deveria ser assim. E por não ser tão assim, percebemos  o NIVERRRRRRRR evolucionário que estamos, ou enquanto brasileiros, ou enquanto HUMANOS.

Tá, e esse blá, blá, blá todo tem a ver com o que no FICAR???? Com tudo, minha gente! Você já entenderá, é simples.

A escolha de ficar implica em exercer sua/minha/dele LIBERDADE, certo? É um pacto social entre dois seres (heteros ou homossexuais) que CONIVENTEMENTE aceitam saciar-se sexualmente sem se comprometerem emocional ou socialmente. Ou seja: implicitamente um comunica ao outro: “Irei te usar para me saciar meus instintos mais primários, tudo bem?” e o outro, conivente, consente.

Alguns a essa altura da leitura já estão indignados dizendo sozinhos: “Ahhhhhh, não é bem assim não! Não rola sexo, é só suprimento de carência mesmo.”  Mentira! Pois quando uso a palavra sexo aqui refiro-me aos seus vários níveis. E, convenhamos, senhores, sabemos o quanto beijos (ingênuos, ohhhh) e carícias são sexualmente estimulantes nesse tipo de relação ou você quer tentar me convencer que num pacto relacional em que eu me eximo do sentimento o objetivo seja outro???? Ok… querem me (se) enganar… É, concordo que a ignorância é uma delícia… Ahhhhhh, sim! Nisso eu concordo! Pode rolar do FICAR evoluir para um sentimento, um namoro, quem sabe. E ai entra o segundo ponto:

Diante disso, o FICAR torna-se um ato extremamente IRRESPONSÁVEL. Ohhhhhhhhhh, os já anteriormente indignados amanhã já nem falarão mais comigo…rs. Brincadeiras a parte, segundo o dicionário IRRESPONSÁVEL significa: aquele que não responde pelos seus atos. Sendo assim, considero até aceitável que menininhos e menininhas de 13, 14 – 16 anos fiquem ou desejem praticar esse tipo de relacionamento irresponsável e que vise a apenas uma saciação sexual. Afinal, todos fomos adolescentes e sabemos o que os hormônios nos causas (além de espinhas). É a fase da descoberta do outro e qualquer especialista explica isso muito melhor que eu. Mas o que me preocupa é que essa atitude, dentre as outras tantas típicas da irresponsabilidade adolescente, se estenda a adultos (ou àqueles que deveriam agir como tal).

Oras, se já passei da adolescência, se tenho condições de assumir compromissos responsáveis (pelos quais posso responder pelo meu sentimento/emoção/tesão) e tenho também consciência do outro e sou TAMBÉM responsável pelo outro. Considerando, inclusive, aquilo que posso provocar no outro. Por que não o faço? Assim, se eu fico e o outro se apaixona/ama/gosta de mim eu simplesmente digo: “Problema seu”, viro as costas e vou-me embora pra Passargada (mesmo!)????? I-RRES-PON-SA-BILIDADE! Pois, parafraseando Exupèry, se cativei, agora sou RESPONSÁVEL por isso, ou seja: devo responder por isso.

Quer dizer, os “adultos” continuam imaturos emocionalmente. Com medinhos de assumirem responsavelmente o outro, de respeitarem a si mesmos e a outros. E depois ainda tenho de ouvir desses mesmos “ficadores”: Aiiiiiiiii, não encontro ninguém! Hum…

Ou sejamos responsáveis, conosco em 1o lugar, e crescemos emocionalmente, ou continuaremos vendo umas locuradas por ai (de guri matando namoradinha de 12 anos, por exemplo).  Além de zilhões de gentes sozinhas, reclamando e carentes. Por que quando beijar todo mundo suprir a carência de alguém, eu sou a 1a a promover isso. No entanto o que vejo é um efeito “açúcar” quanto mais se come, mais dependência causa. Ai busca outro “docinho” pra suprir a dependência, e assim vai, de docinho em docinho…

Alguém ai disposto a um amor responsável junto comigo? 🙂

Com carinho, consciência e sempre buscando a essência das coisas, Rubi