DÁ licença que agora a passional sou eu!

Não é de hoje que muitos episódios sociais tem me indignado. O que, confesso, considero muito positivo, pois o dia que eu me tornar indiferente é sinal que fui contaminada pelo acicate vírus da indiferença, da epidemia de apatia, que vem acometendo meus amigos/irmãos Humanos, ou talvez, do que Saramago muito genialmente denominou de “cegueira”.

Infelizmente não estou cega e acompanhei nos últimos dias o caso passional do rapaz, Lindembergue Alves, que manteve a ex-namorada em cárcere privado por mais de 100 horas. Um idiota. Um coitado, sem voz social, que talvez tenha se enchido do seu anonimato, de ser mais um na multidão que diariamente superlotam os trens da periferia de Santo André rumo as suas vidinhas sem grandes perspectivas, mas talvez cheia de emoções passionais.

Até ai nada me assusta muito, pois quem nunca presenciou a baixaria de algum vizinho? Eu mesma tenho uma família (se é que esse é o termo adequado para aquele ajuntamento de pessoas) que frequentemente compartilham suas diferenças com todo o quarteirão, e, detalhe, por longo tempo; pois os berros entre os tais “entes queridos” são ouvidos altissonoros à metros e metros. É uma angústia presenciar fatos como esse, mas eles existem, como disse, em qualquer boa vizinhança. Seja no bairro da elite, seja na perifieria do ABC paulista.

No entanto, e até para não me contradizer, o que me indigna de fato são três coisas: o sensacionalismo de uma mídia pobre, doente e condecendente com seus espectadores passivos e sugestionáveis que precisam de sensasionalismo barato para entorpecer o cérebro. Uma polícia fraca, mal preparada, mal instruída e vitimizada pela corrupção e pelo baixo investimento em capital humano. E pais de família que colocam-se acoados diante dos aparentemente pequenos caprichos dos filhos e que na verdade ocultam a ebolição das bárbaries.

Explico-lhes. Comecemos pela mídia. Quem já assistiu ao John Travolta em “O quarto poder” entenderá bem o que eu quero dizer, porque para mim aqui a arte imitou a vida (ou a vida a arte, como queiram). Um cara tido como pacato, num ato tresloucado, resolve usar da força da sua brutalidade para tapar uma frustração emocional. Resultado: pega o revolver do pai, do sei lá quem, e domina uma situação. Isso não poderia ter sido encarado como um simples desajuste familiar? Cadê os pais desse rapaz? Se é um filho seu, você não bate na porta do SEU apartamento e diz: “Oh, muleque, vem cá!” Sei que são várias as hipóteses para a solução do caso, mas não é esse o meu foco no momento. O que não consigo deixar de reparar é: o que a mídia tinha de se meter com isso? Até que ponto ela superdimensionou o caso e influenciou nas decisões do rapaz? Avalie comigo, quem na multidão de anônimos não ambiciona ser famoso? Não precisamos de profundas análises para constatarmos: a maior audiência desse país é uma patifaria chamada BBB e o que ela faz? Promove anônimos! A exploração foi tanta que a Sonia Abrão (em pessoa!!!!) conversou com Lindembergue por telefone.

Em segundo lugar temos a atuação da polícia. A SWAT, tida como uma das policias mais bem preparadas do mundo, negocia durante 24 horas, depois disso age: ou aciona os atiradores de elite, ou invade o local e mobiliza os bandidos. Que lamento doído ver que nesse país bandido tem mais voz do que gente descente. O que esperar de uma nação que beneficia o infrator e intimida o cidadão de bem? É esse o Estado democrático que desejamos? É esse o legítimo exercício do direito democrático? Todos sabemos que em uma democracia há direitos, sim, mas também deveres. Seguidos das devidas punições para seus infratores, pelo menos deveria ser assim, ainda mais quando se coloca em risco vidas humanas. No entanto, onde está a agência de inteligência da polícia para planejar a ação em um caso como esse? Talvez extremamente acovardada atrás de fardas que escondem pais de família que aceitam subordonos que complementarão a, muitas vezes ínfima, renda familiar, a fim de sustentar mulher e uns alguns dois ou três filhos, quanto não mais. Ou ainda ocupados em intimidar os policiais civis que, bem nesse dia, resolveram fazer manifestação de direito de greve em frente ao Hospital Albert Einsten.

Por fim, a mais primordial e fragilizada estância social: a família. E dessa não vou nem comentar, porque quem conhece meus textos sabe o que já tenho dito sobre a dicotomia limites versus frustração para a formação de gente de bem. Essa total omissão de pai e de mãe, pessoas muitas vezes bem intencionadas, porém algumas vezes confusas em seus papéis, tem produzido uma geração de suícidas-homícidas-parricidas.

É minha gente, ou repensamos a sociedade e agimos em prol de alguma mudança, ou daqui a pouco será totalmente insuportável viver por aqui. E quanto a isso, dá licença, que agora a passional sou eu!

(Rubiana Silva Pereira, 32 anos, professora, mulher, cidadã brasileira, indignada)